Com a foto do pai na carteira

Você conhece alguém que desde cedo soube o que iria fazer na vida? Alguém que já sabia qual seria sua profissão, enquanto você ainda nem sabia direito o que escolher no vestibular? Então, você pensou com um pouco de inveja: “nossa, como eu queria saber o que eu vou ser“!

Comigo foi assim. Meu primeiro vestibular foi para Agronomia. Era uma opção objetiva: ajudar na empresa do meu pai, que atuava nesse ramo. Eu não passei no vestibular. E não fui trabalhar na empresa do meu pai. A empresa sofreu uma crise. Meu pai ficou doente e morreu do coração aos 48 anos. Alguém me disse: “agora é tudo contigo, guri”. Eu assumi a culpa. Assumiram por mim o que eu iria ser.

Naquela época, eu não tinha a menor noção, nem referências. Eu tinha inveja da Lavínia, minha colega no colégio. Ela queria ser médica.  Aos 16 anos de idade ela sabia exatamente o que queria ser no futuro. (Hoje a Lavínia é uma reconhecida geneticista).

Como não invejar quem não precisasse passar por aquela sensação de descaminho que eu sentia? Eu sonhava ouvir um chamado claro: “Essa é tua vocação, Edgar”. Mas eu não ouvia.

Infelizmente, naquele momento, ninguém me apontou “quem sabe tu vai por ali? Enquanto o chamado não vem, anda naquela direção, toma consciência dos talentos, eles podem interessar alguém…”.

Ninguém me explicou a diferença entre a vocação e o talento.

A palavra “vocação” vem do latim “vocare” e quer dizer “chamar”. Vocação é um “chamado” que leva as pessoas a exercerem uma determinada carreira ou profissão. Tem uma inclinação para aquilo. Parece que nasceu pra fazer aquilo até. (tanto que em inglês “vocation” está ligado a seguir o sacerdócio!)

Talento é diferente. É a capacidade intelectual, uma aptidão que uma pessoa tem de desenvolver uma atividade com facilidade e habilidade. Tocar guitarra, resolver cubo mágico, resolver contas de cabeça.

Depois de anos de jornada eu tive que aprender sozinho que:

Não é preciso uma vocação para iniciar

Se você não tem uma vocação clara, não esquenta. Eu poderia encaminhar minha profissão mesmo que eu não escutasse nenhum chamado. Quando eu descobrisse o que eu sabia fazer bem, iria seguir pelos meus próprios talentos, mesmo que não tivesse uma inclinação, uma vocação.  A gente pode se dar muito bem usando as nossas habilidades.  Então, tudo que é preciso é trabalhar nelas e usá-las a nosso favor, relacionar esses talentos a um objetivo de vida .

Aliás, tive alguns amigos de juventude que não conseguiram chegar longe, mesmo tendo uma vocação clara desde o início.  Porque eles não desenvolveram a habilidade necessária para responder ao chamado.  Se você tem uma vocação, é preciso desenvolver os talentos necessários para fazer essa vocação acontecer.  A escritora Clarice Lispector disse que “pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir.”

A felicidade não é uma consequência natural na realização da vocação

Na vocação há um senso de fazer o que se gosta, mas nem sempre isso se impõe. O “chamado” requer sacrifício e concentração, gerando muitos eventos negativos e “infelizes”. A felicidade não é uma consequência natural na realização da vocação. A felicidade acontece em retrospectiva, pela excelência do resultado, que é seu impacto nos outros.

A auto-realização se dá na vocação 

Você pode conquistar o sucesso pessoal através dos teus talentos. Mas, a auto-realização se dá na vocação, não no talento.

A vocação vai acontecer no caminho

A experiência e a maturidade vão te levar a usar teus talentos de forma mais consciente. É a partir daí que você vai descobrindo a tua vocação.  Sim, a vocação é um senso de propósito, mas nem sempre precisa começar com um propósito claro. Quase sempre, ele fica claro no caminho.  Num caminho de auto-conhecimento.  A vocação é algo no que a gente se transforma.

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Fui executivo de grandes empresas, consultor de pequenas e empreendedor. Me formei em comunicação, marketing e liderança. Sou mestre em administração. Rolei pelo mundo de mochila com o violão nas costas. Enfim, eu cheguei até aqui por escolhas comoventes para encontrar meu próprio caminho. Em todos esses anos eu trabalhei com a foto do meu pai na carteira.

Agora, já passando dos 50, eu fiz uma nova escolha. Uma escolha profissional. Iniciar um novo formato de carreira como mentor. E, como aconteceu com meu pai, surgiu o medo da falência. Uma reputação a perder. Três filhos e dependentes para cuidar. Dar errado … O medo passou.

Vivo a minha vida pelos empreendedores. E num instante, depois de tantos anos, olho pra trás e me dou conta como cheguei até aqui: para manter empreendedores vivos. Manter meu pai vivo.

Eu encontrei a minha vocação.

Entendi que não escolhemos propósitos. Eles é que nos escolhem no transcorrer da jornada.

 

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