Em busca da originalidade

Estamos cercados daqueles que contam suas histórias dramáticas de superação e fabulosos desafios alcançados. As possibilidades que eles emanam são realmente inspiradoras. Mas, com frequência cada vez maior, conduzem pessoas a uma conclusão perturbadora:

“Bem… talvez eles [empreendedores, artistas, criativos e outros ‘super-heróis’] possam fazê-lo, mas eu sou apenas um cara/uma guria normal…”

Então, a salvação estaria em aceitar e conviver melhor com nossas próprias limitações, já que nos sentimos incapazes de alcançar uma vida extraordinária de sucesso, felicidade e propósitos?

O discurso de Jean-Jacques Rousseau (1754) diz que sim. Para ele, a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens estão em que “a riqueza não envolve ter muitas coisas”. Ela envolve ter o que se anseia. A riqueza não é algo absoluto. É relativa ao desejo.

Cada vez que queremos alguma coisa que não podemos pagar, nos tornamos mais pobres, quaisquer que sejam nossos recursos. Para Rousseau, há duas maneiras de tornar as pessoas mais ricas: dar a elas mais dinheiro ou restringir seus desejos.

Sim, o desejo realmente pode te acorrentar a uma vida de vícios e consumismo. Viver sob o jugo do desejo pode nunca te deixar satisfeito.

No entanto, ao mesmo tempo, o desejo é a antessala da coragem. Somente uma pessoa com desejo tem ambições na vida. E isso é um enorme passo em direção ao enfrentamento e construção da virtude.

O caminho do crescimento pessoal, então, não estaria na resignação, na aceitação condicionada de nossas limitações. Ao contrário, a nossa vida é construída pelos limites que alargamos. Viver é enfrentamento.

Ainda que você não faça nada, teus músculos te deixarão mais fortes e te arrancarão do berço do quarto de criança. O motor da vida te fará galgar a porta da casa dos pais para buscar o mundo de oportunidades e mistérios. Ainda que você resista, perca-se pelo caminho, a vida te empurrará para a frente, para experimentar novos sabores, medos e amores. Novos desejos.

A questão primordial, então, seria reconhecer “pelo quê ter ambição”. Diante de tantos “falsos desejos”, o que realmente importa? O que realmente TE importa? Ou: você é capaz de viver com aquilo que lhe é suficiente?

Ao empreender esse enfrentamento de vida, espelhar-se em semideuses do Instagram pode estimular e inspirar, ou te fazer um impostor.

Escondido atrás de uma estratégia (pessoal ou meramente digital) vazia de personalidade e essência, você pode confundir os outros e a si mesmo. Como um impostor, você se distanciará de descobrir a si próprio, a sua originalidade.

Pense comigo:

Muitas coisas boas acontecem num ciclo mais longo e são incrementais, como várias pequenas conquistas no tempo (entendendo que o sucesso não é garantido ou pode demorar);

É possível começar algo novo sem um propósito definido (muito menos extraordinário), porque na maioria das vezes o propósito, assim como a vocação, se enxergam no caminho, não a priori;

Quem vende livros dizendo que o trabalho deveria ser quase uma brincadeira, apenas escreve para a parte mais graciosa do mundo. É uma ideia excludente, fantasiosa,  um mundo inacessível para quem está ralando forte para fazer o que precisa ser feito.

 

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